Ela era uma simples manicure, viúva, mãe de três filhos, moradora numa
comunidade carente, ou favela no popular, na Vila Kennedy, no Rio de
Janeiro. Lá sobram pessoas de bem, mas falta tudo. Como sempre acontece
nesses lugares, o poder público passa ao largo. O crime organizado, não.
A manicure era viúva porque o marido morreu roubando, ou passando
droga, ou algo do tipo. Não dá para julgar aquele homem. Eram três
filhos e mulher para sustentar e as oportunidades bem pequenas, a não
ser aquelas que o poder paralelo dava. Ao mesmo tempo que ele era um
criminoso, era também uma vítima. E a família ficou na mão da mãe. Não
eram poucos os problemas. Além de dar comida, educação e orientação aos
filhos ela precisava lutar contra os maiores inimigos, as tentações que
vinham de fora.
Na medida que as crianças cresciam mais ouviam propostas de
“trabalho”. Entregar drogas, participar de assaltos, enfim, conseguir
dinheiro, como eles diziam, de forma “fácil”. Mas ela estava atenta e
lembrava o quanto sofreu com a morte do pai e que não suportaria perder
qualquer filho da mesma forma. Apesar da simplicidade soube mostrar
valores para as três crianças. Até que um deles descobriu que sabia
jogar futebol. Primeiro os joguinhos de rua, onde era sempre um dos
primeiros a ser escolhido, até o convite para um teste no Botafogo.
Topou e foi aprovado, mas não aproveitado. Aí a sugestão para largar
tudo no Rio e tentar a vida em São Paulo, no Palmeiras.
Mesmo não sendo um clube de dar muitas oportunidades ao pessoal da
base, o Palmeiras o recebeu com carinho e Gilson Kleina resolveu apostar
nele. Bingo. O garoto não tremeu. E porque ficaria assustado depois de
tudo que passou na vida ? Na estréia da Libertadores ele fez o gol da
vitória contra o Sporting Cristal e encarou o campeão do mundo,
Corinthians, com total naturalidade. Patrick Vieira só está começado.
Tem virtudes, porém é difícil saber até onde poderá chegar. Mas é um
grande, um vencedor. Só a sobrevivência, ao contrário da maioria dos
amigos de infância, mortos ou presos, já mostra que o rapaz tem valor.
Isso não se discute.
Só que a grande vitória não é dele. É da manicure da Vila
Kennedy, a heroína, que além de dar um jogador de bom nível para o nosso
futebol, preservou três jovens, que tinham tudo para serem criminosos.
Não foi o governo, não foi o estado, não foi ninguém. Foi a mãe
batalhadora, cujo nome, lamentavelmente não sei, que fez sozinha o que
tanta gente, que tinha obrigação de fazer, simplesmente virou as
costas. Minha homenagem a figuras assim, anônimas, que ainda dão alguma
esperança ao nosso país.
por: Flávio Prado
por: Flávio Prado

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