quinta-feira, 30 de abril de 2015

Bar-Bay e o Tico-Tico no Fubá

AFP
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O maior dramaturgo brasileiro, escritor e cronista esportivo tão citado, Nélson Rodrigues, costumava falar repetidamente nas tais verdades eternas, aquelas que atravessam os tempos sem perder o viço e a atualidade.
No rastro do mestre, digo que o futebol jogado pelo Barcelona e o Bayern, afora outros, como o Arsenal, por exemplo, é uma dessas verdades eternas, pois vem dos confins da criação do jogo, inicialmente chamado pelos ingleses de foot-ball association. Isto é: um jogo coletivo em que a a bola, objeto central da prática, deve ser compartilhada por todos. Jogo que segue atualíssimo até hoje.
O passe e repasse é a essência do jogo, cujo objetivo final é levar a bichinha pra dormir nas redes adversárias. O resto tudo – táticas, jogadas individuais etc. – é mera decorrência.
Se vivo estivesse Nélson Rodrigues, ao espiar uma partida do Barça ou do Bayern na tv, diria no ato: “É tico-tico no fubá, oras bolas!”
Essa expressão era utilizada com frequência por nossa crônica esportiva e pelos torcedores, nos anos 30, 40 e 50, sempre que um time se esmerava na troca de passes rápidos e precisos. E timbrou para a história o jogo apresentado pelo América carioca nos anos 40, naquele time em que despontava Maneco, o Saci do Irajá, justamente imortalizado por Nèlson Rodrigues, em crônicas antológicas.
A expressão é roubada do título de um chorinho de Zequinha de Abreu, Tico-Tico no Fubá, inspirado numa cena de infância do autor, ao presenciar aquela dança alegre ao som de pios entrecortados dos passarinhos no terreiro onde o fubá havia se derramado, um clássico do nosso cancioneiro, tão esquecido hoje em dia como o estilo de jogo que nos deu fama e títulos.
Ouça, meu amigo, os versos acrescentados à música mais tarde e interpretados por Ademilde Fonseca, a Rainha do Chorinho:
O tico-tico cá
O tico-tico lá
O tico-tico vai comendo meu fubá…
Pois não é a exata representação do que catalães e bávaros fazem com a bola o tempo todo?: é tico-tico cá, é tico-tico lá, o tico-tico vai comendo meu fubá…
Perceba o ritmo das palavras, mesmo que os acordes não lhe venham à mente e reveja a bola quicando na pauta do gramado, pra cá, pra lá, como notas musicais sincronizadas num andamento rápido e envolvente.
É ou não é uma dessas verdades eternas que sempre ressurgem da sepultura onde foi depositada pela desmemória dos homens?
Fonte: Alberto Helena Júnior

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Real, 1 a 0. Ainda bem.

AFP
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Os devotos de São Simeone dirão que ele, com seu modesto time, e por força de seus milagres,  fez o poderoso Real sangrar até o último minuto em mais de três horas de disputa pelas quartas-de-final da Liga dos Campeões.
Nem o Atlético de Madri é tão modesto assim, nem há milagres embutidos na deslavada retranca que Simeone implantou no seu time, tanto no jogo de ida como neste da volta, em Santiago Bernabéu, vencido com um gol arrancado a fórceps por Chicharito Hernandez, em esperta trama entre James Rodriguez e Cristiano Ronaldo.
Foi o jogo de uma nota só: o Real atacando e o Atlético se defendendo, o tempo todo. E assim seria numa eventual prorrogação, e, tenho cá minhas dúvidas, se, na cobrança de pênaltis, os atleticanos não escalassem dois goleiros.
E olhe que o Real entrou em campo desfalcado de quatro titulares essenciais – Marcelo, suspenso, Benzema, Bale e Modric, lesionados; portanto, 40 por cento de seus jogadores de linha, praticamente meio time.
E, por decisão equivocada de seu técnico, o zagueiro Sérgio Ramos foi escalado no meio de campo, no lugar de Modric, o que reduziu a capacidade de criação e infiltração do seu time diante de uma muralha vermelha e branca. E assim foi até o apito final, mesmo podendo recorrer ao menino Jessé, mais ágil e hábil na tentativa de abrir o ferrolho inimigo.
Mas, enfim, deu Real, o que é menos mal para o futebol representado nas semifinais também por Bayern, Barça e Juventus, que empatou com o Monaco, no Principado, por 0 a 0, único remanescente do catenaccio (cadeado) nessa fase decisiva da Liga dos Campeões da Europa. Mas, um catenaccio light, diria. Ainda bem.