O maior dramaturgo brasileiro, escritor e cronista esportivo tão citado, Nélson Rodrigues, costumava falar repetidamente nas tais verdades eternas, aquelas que atravessam os tempos sem perder o viço e a atualidade.
No rastro do mestre, digo que o futebol jogado pelo Barcelona e o Bayern, afora outros, como o Arsenal, por exemplo, é uma dessas verdades eternas, pois vem dos confins da criação do jogo, inicialmente chamado pelos ingleses de foot-ball association. Isto é: um jogo coletivo em que a a bola, objeto central da prática, deve ser compartilhada por todos. Jogo que segue atualíssimo até hoje.
O passe e repasse é a essência do jogo, cujo objetivo final é levar a bichinha pra dormir nas redes adversárias. O resto tudo – táticas, jogadas individuais etc. – é mera decorrência.
Se vivo estivesse Nélson Rodrigues, ao espiar uma partida do Barça ou do Bayern na tv, diria no ato: “É tico-tico no fubá, oras bolas!”
Essa expressão era utilizada com frequência por nossa crônica esportiva e pelos torcedores, nos anos 30, 40 e 50, sempre que um time se esmerava na troca de passes rápidos e precisos. E timbrou para a história o jogo apresentado pelo América carioca nos anos 40, naquele time em que despontava Maneco, o Saci do Irajá, justamente imortalizado por Nèlson Rodrigues, em crônicas antológicas.
A expressão é roubada do título de um chorinho de Zequinha de Abreu, Tico-Tico no Fubá, inspirado numa cena de infância do autor, ao presenciar aquela dança alegre ao som de pios entrecortados dos passarinhos no terreiro onde o fubá havia se derramado, um clássico do nosso cancioneiro, tão esquecido hoje em dia como o estilo de jogo que nos deu fama e títulos.
Ouça, meu amigo, os versos acrescentados à música mais tarde e interpretados por Ademilde Fonseca, a Rainha do Chorinho:
O tico-tico cá
O tico-tico lá
O tico-tico vai comendo meu fubá…
Pois não é a exata representação do que catalães e bávaros fazem com a bola o tempo todo?: é tico-tico cá, é tico-tico lá, o tico-tico vai comendo meu fubá…
Perceba o ritmo das palavras, mesmo que os acordes não lhe venham à mente e reveja a bola quicando na pauta do gramado, pra cá, pra lá, como notas musicais sincronizadas num andamento rápido e envolvente.
É ou não é uma dessas verdades eternas que sempre ressurgem da sepultura onde foi depositada pela desmemória dos homens?
Fonte: Alberto Helena Júnior
Fonte: Alberto Helena Júnior

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